(2011) Sobre a combinação da Pragma-dialética com a Análise Crítica do Discurso moreConstanza Ihnen e John E Richardson |
266 views |
tit,
Universidade Estadual de Santa Cruz
Reitor: Antonio Joaquim Bastos da Silva
Vice-Reitor: Adelia Maria Carvalho de Melo Pinheiro
DLA
DEPARTAMENTO DE
LETRAf E ARTE/
Departamento de Letras e Artes
Diretor: Samuel Leandro Oliveira de Mattos
Vice-Diretora: Lucia Regina Fonseca Netto
Rodovia BA-415, Ilheus-Itabuna, km 16
Campus Soane Nazare de Andrade
CEP 45662-900 - Ilheus - Bahia - Brasil
Enderego eletronico: letras@uesc.br
Sftio eletronico: http://www.uesc.br/dla/index.php
Fone/Fax: 55 73 3680-5088
EID&A
EID&A
Revista Eletronica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentagao
ISSN 2237-6984
Editores
Eduardo Lopes Piris
Moises Olfmpio Ferreira
Enderego eletronico: revista.eidea@gmail.com
Sftio eletronico: http://www.uesc.br/revistas/eidea
EID&A: Re vista Eletronica de Estudos Integrados em Discurso e Argumenta^ao
UESC - Universidade Estadual de Santa Cruz
Departamento de Letras e Artes
Rodovia BA-415, Ilheus-Itabuna, km 16
Campus Soane Nazare de Andrade
CEP 45662-900 - Ilheus - Bahia - Brasil
revista.eidea@gmail.com
Editores
Eduardo Lopes Piris • Moises Olfmpio Ferreira
Comite Cientifico
Ana Maria Di Renzo (UEMT) • Ana Soledad Montero (UBA) • Ana Zandwais (UFRGS) • Anna
Flora Brunelli (UNESP) • Carlos Piovezani (UFSCar) • Claudia Stumpf Toldo (UFP) • Christian
Plantin (ICAR/CNRS) • Cristian Tileaga (U.Loughborough) • Eduardo Chagas Oliveira (UEFS) •
Eduardo Lopes Piris (UESC) • Edvania Gomes da Silva (UESB) • Eliana Alves Greco (UEM) •
Eugenio Pagotti (UFS) • Emilia Mendes Lopes (UFMG) • Galia Yanoshevsky (U.Tel-Aviv) •
Gilberto Nazareno Telles Sobral (UNEB) • Grenissa Bonvino Stafuzza (UFG) • Helena Nagamine
Brandao (USP) • Isabel Cristina Michelan Azevedo (ABEC) • Ivo Jose Dittrich (UniOeste) • John E.
Richardson (U.Newcastle) • Jose Niraldo de Farias (UFAL) • Juan Eduardo Bonnin (UBA) • Juan
Marcelo Columba-Fernandez (UPCEA) • Juciane dos Santos Cavalheiro (UEA) • Leonildo Silveira
Campos (UMESP) • Lineide Salvador Mosca (USP) • Luciana Salazar Salgado (UFSCar) • Luciano
Novaes Vidon (UFES) • Manuel Alexandre Junior (U.Lisboa) • Marcia Regina Curado Pereira
Mariano (UFS) • Maria Adelia Ferreira Mauro (USP) • Maria Alejandra Vitale (UBA) • Maria
Amelia Chagas Gaiarsa (UCSal) • Maria de Lourdes Faria dos Santos Paniago (UFG) • Maria Eliza
Freitas do Nascimento (UERN) • Maria Emilia de Rodat de Aguiar Barreto Barros (UFS) • Maria
Helena Cruz Pistori (PUC/SP) • Maria Rosa Petroni (UFMT) • Maria Teresinha Py Elichirigoity
(UFRGS) • Marianne Doury (CNRS) • Marie-Anne Paveau (U.Paris XIII) • Marisa Grigoletto (USP)
• Moises Olfmpio Ferreira (USP) • Nelson Barros da Costa (UFC) • Nilton Milanez (UESB) • Ricardo
Henrique Resende de Andrade (UFRB) • Rui Alexandre Gracio (U.Aveiro) • Ruth Amossy (U.Tel-
Aviv) • Ruth Wodak (U.Lancaster) • SMo Possenti (UNICAMP) • Soeli Maria Schreiber da Silva
(UFSCar) • Sophie Moirand (U.Paris III) • Soraya Maria Romano Pacifico (USP) • Valdir Heitor
Barzotto (USP) • Wander Emediato de Souza (UFMG) • William Augusto Menezes (UFOP) •
William M. Keith (U.Wisconsin) • Zilda Gaspar Oliveira de Aquino (USP)
Tradutores
Ingles: Cleide Lucia da Cunha Rizerio e Silva • Gabriel do Nascimento Santos • Kelly Cristina de
Oliveira • Laurenci Barros Esteves • Mario Bonazza de Carvalho • Moises Olfmpio Ferreira
Frances: Carlos Alberto Magni • Eduardo Lopes Piris • Moises Olfmpio Ferreira • Rodrigo dos
Santos Mota • Sebastien Giuliano Giancola • Sergio Israel Levemfous • Silvana
Gualdieri Quagliuolo Seabra • Thaise Almeida dos Santos
Espanhol: Cristina do Sacramento Cardoso de Freitas • Ludmila Scarano Coimbra
Revisores
Denise Gonzaga dos Santos Brito • Eduardo Lopes Piris • Maria Helena Cruz Pistori • Mirelia
Ramos Bastos Marcelino • Moises Olfmpio Ferreira • Roberto Santos de Carvalho
Capa e logotipo
Laurenci Barros Esteves
Diagrama^ao
Eduardo Lopes Piris
Revista Eletronica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentagao
SOBRE A COMBINAgAO DA PRAGMA-DIALETICA COM A ANALISE
CRITICA DO DISCURSO1
Introdmjao
Recentemente, uma 'fronte' academica foi
aberta entre a Analise Critica do Discurso
(ACD) e o conhecimento argumentative mais
'ortodoxo'. Especificamente, em um discurso
proferido em uma importante conferencia,
Zagar (2009) defendeu que os trabalhos de
alguns Analistas Criticos do Discurso nao
apenas fazem o mau uso, como tambem
interpretam erroneamente alguns conceitos
centrais da teoria retorica classica - em
particular os topoi - e que permanentemente
mancharam a sua convengao analitica por
conta de um desencontro fundamental entre os
objetivos analiticos e polfticos da ACD. A
partir de uma postura argumentativa diferente,
porem nao totalmente irrelacionada, Iejcu-
Fairclough (2010, p. 2) argumentou que a
Abordagem Historica do Discurso para a ACD
utiliza a nogao de topos "de maneiras que
parecem nao corresponder" a forma que o
topos e definido na retorica classica. Em vez
disso, a propria analise critica dos discursos
publico e politico feita por Fairclough favorece
"uma abordagem que faz uso do aparato
Constanza Jory Dinen"
John E Richardson111
altamente tecnico e rigoroso da teoria da
argumentagao a fim de participar da
reconstrugao e da analise do argumento"
(IEJCU-FAIRCLOUGH, 2010, p. 3).
Entretanto, ela e enfatica ao dizer que "o
modelo pragma-dialetal nao e suficiente" para
tamanha tarefa, visto que "O debate e
deliberagao publicos nao se encaixam
facilmente no modelo de DC [discussao
critica]" (Ibid). Mais detalhadamente, ela
argumenta que, embora a discussao critica
"termine de maneira ideal em consenso, a
politica nao e um reino em que o consenso e
sempre possfvel ou desejavel". Ao ignorar o
fato de que a resolugao de uma divergencia
entre opinioes nao e a mesma coisa que atingir
um consenso, Ietcu-Fairclough (2010) defende
que isso nao e sempre possfvel, pois ha
"diferengas de opiniao que precisam ser
deixadas em paz e que devem coexistir
pacificamente sem um acordo, sem um ponto de
vista tentar mudar o outro"; similarmente, a
solugao nao e sempre desejavel, visto que "o
raciocmio pratico na esfera publica ocorre num
contexto de pluralismo de valores, bem como
uma pluralidade de objetivos, e ha argumentos
tipicamente bons em ambos os lados de um
I Referenda do texto fonte desta tradugao: IHNEN; Constanza; RICHARDSON, John E. On Combining Pragma-
Dialectics with Critical Discourse Analysis. In: FETERIS, E.T.; GARS SEN, B.; SNOECK HENKEMANS, F. (Eds).
Keeping in touch with Pragma-Dialectics: In honor of Frans H. van Eemeren. Amsterdam: John Benjamins, 2011. pp.
231-244.
II Doutoranda pela Universidade de Amsterdam, Holanda. E-mail: c.ihnemjory @ uva.nl.
III Docente da Universidade de Newcastle, Inglaterra. E-mail: iohn.richardson2@newcastle.ac.uk.
38
IHNEN, Constanza; RICHARDSON, John E. Sobre a combinacao da Pragma-dialetica com a Analise Critica do
Discurso. Traducao de Laurenci Barros Esteves. EID&A - Revista Eletrdnica de Estudos Integrados em Discurso e
Argumentagao, llheus, n.1, p. 38-48, nov. 2011._
debate" (Ibid). Por ultimo, Forchtner e Tominc
(no prelo) argumentam contra o uso da
Pragma-Dialetica na Abordagem Historia do
Discurso para ACD, uma vez que faze-lo
implica em um "conflito epistemologico"
incomensuravel entre a Teoria Critica
(Habermas) da Abordagem Critica do
Discurso e o Racionalismo Critico da Teoria
Pragma-Dialetica.
Em suma, ha um corpo de trabalho
crescente que afirma haver uma
incompatibilidade basica entre a ACD e a
Pragma-Dialetica. Em contraste com essa
ideia, consideramos essa partilha putativa entre
a ACD de um lado e a argumentagao - em
particular a teoria pragma-dialetal - do outro,
como equivocada e indesejavel. De fato, neste
artigo, defendemos que a Pragma-Dialetica
pode desempenhar um enorme papel no piano
de pesquisa da ACD. Desenvolvemos o nosso
argumento em duas etapas: na primeira,
destacamos as diferengas entre essas duas
abordagens: uma vez que se pode esperar que
os leitores estejam mais ou menos
familiarizados com a teoria Pragma-Dialetica,
mas nao necessariamente com a ACD,
comegamos com uma breve introdugao a essa
ultima. Em seguida, especificamos os
beneffcios que sao os resultados da
combinagao das duas perspectivas.
1. Duas abordagens para o discurso
(argumentative)
Os principais focos teoricos e analfticos da
Analise Critica do Discurso (ACD) continuam
a ser as relagoes entre o texto e o contexto.
Como a maioria das abordagens da analise do
discurso, a ACD esta interessada em examinar
"o que e como a linguagem comunica quando
e usada propositalmente em determinadas
instancias e contextos" (CAMERON, 2011, p.
13). Consideramos que a linguagem e uma
pratica social que, como todas as praticas, e
dialeticamente relacionada aos contextos de
seu uso. Em outras palavras, "falar e escrever
sempre representa, produz e reproduz atitudes,
crengas, opinioes e ideologias" (HEER e
WODAK, 2008, p. 10) e, dessa forma, o uso
da linguagem contribui para a produgao e
reprodugao de realidades sociais.
Apesar de seu nome, a ACD nao e um
metodo singular de analise. Em vez disso, e
uma perspectiva sobre o conhecimento critico,
direcionado a analise dos meios atraves dos
quais os indivfduos e grupos sociais usam a
linguagem. Os analistas criticos do discurso
focalizam "em problemas sociais e
especialmente no papel do discurso na
produgao e reprodugao do abuso de poder e
dominagao" (van DIJK, 2001, p. 96). Por isso,
"A ACD se enxerga como uma pesquisa
politicamente envolvida com necessidades
emancipatorias: busca alcangar um efeito na
pratica social e nas relagoes sociais"
(TITSCHER et al, 2000, p. 147),
particularmente as relagoes de supressao de
poder, dominagao, preconceito e/ou
discriminagao.
Dada a variagao das abordagens para a
ACD - ou, de forma ainda mais ampla, a
variagao dos Estudos do Discurso Critico -,
inevitavelmente qualquer consideragao sobre o
que e a ACD sera parcial. Aqui, discutimos a
Abordagem Historica do Discurso de Ruth
Wodak para a analise do discurso (ver
REISIGL e WODAK 2001, 2009;
RICHARDSON e WODAK, 2009a, 2009b;
WODAK, 2009), visto que essa e, atualmente,
a unica abordagem significante que, a
prinefpio, trouxe formalmente a argumentagao
a esse vies analftico1. A Abordagem Historica
1 Isso nao e para sugerir que outras abordagens para a
ACD nao estejam interessadas em analisar o discurso
argumentativo. Em um de seus primeiros artigos
programaticos, van Dijk (1993) postula que 'analistas
criticos do discurso querem saber quais estruturas,
estrategias ou outras propriedades do texto, fala,
interacao verbal, ou eventos comunicativos,
desempenham um papel' em relacoes de dominancia
social e depois listam "topicos, significados locais,
estilo e retorica" como candidates a exemplos de tais
39
IHNEN, Constanza; RICHARDSON, John E. Sobre a combinacao da Pragma-dialetica com a Analise Critica do
Discurso. Traducao de Laurenci Barros Esteves. EID&A - Revista Eletrdnica de Estudos Integrados em Discurso e
Argumentagao, llheus, n.1, p. 38-48, nov. 2011._
do Discurso (AHD) busca integrar e triangular
o conhecimento sobre fontes historicas e o
piano de fundo dos campos social e politico
em que os eventos discursivos sao
incorporados. Tamanho objetivo e baseado no
princfpio de que o texto apenas adquire sentido
quando o seu manifesto e significados latentes
(implicatura, pressuposigao, alusao etc.) sao
lidos em contextos. Assim, contexto,
contextualizagao e recontextualizagao
precisam ser levados a serio na analise:
aspectos da construgao de sentido textual que
frequentemente sao sinalizados e realizados
atraves de relagoes intertextuais. Nao ha texto
isolado no espago e no tempo, como muitos
estudos apontam, e, portanto, a
intertextualidade e inerentemente parte e
parcela integrantes da construgao de
significado no texto (van DIJK, 2008a).
A Abordagem Historica do Discurso
(AHD) faz uso de quatro 'nfveis de contexto'
como heuristicos para situar as praticas
discursivas, estrategias e textos e um contexto
sociopolftico especffico. No primeiro, o
contexto imediato, a linguagem ou cotexto
interno do texto, leva em consideragao
questoes como a coerencia textual, coesao e
"os processos interativos de negociagao local"
(REISIGL e WODAK, 2001, p. 41), tal como
estruturas, estrategias ou outras propriedades do texto e
da fala. Similarmente, Fairclough (1996, p. 286)
argumenta que a analise de um evento discursivo
particular requer uma 'orientacao de como retrabalhar o
recurso social da ordem do discurso existente, mas is so
tambem inclui as preocupacoes da analise estilfstica,
pragmatica e retorica'. Fairclough (2003) remete
brevemente ao trabalho de Toulmin na discussao sobre
argumentos 'dialogicos' e 'monologicos', embora tenha
se afastado da argumentacao para uma nocao mais
fluida de interpretacao em sua recente Abordagem
Dialetica-Relacional (2009). Como regra, os metodos da
analise do discurso utilizados na ACD nao podem ser
prescritos com antecedencia, visto que a escolha deles
depende principalmente de questoes de pesquisa
especfficas. Dito isso, a AHD e a unica abordagem que
explfcita e consistentemente cita a argumentacao como
uma estrategia-chave do discurso, daf o nosso foco
nessa abordagem neste artigo.
uma troca de turnos, pergunta e resposta etc.
Alem disso, ao consideramos Billig et al
(1988), defendemos que textos sao multivocais
- apresentam mais de uma visao - ou sao
baseados em "dilemas ideologicos", tensoes e
inconsistencias que podem ser extrafdos da
analise.
No segundo, ha as relagoes intertextuais e
interdiscursivas entre os enunciados, textos,
generos e discursos. Esse nfvel de contexto
leva em consideragao a historia e as
referencias intertextuais de termos e conceitos
usados, ou as formas em que se menciona,
discute ou debate-se um conceito em
diferentes textos e em diferentes generos. Por
exemplo: de que forma tern sido discutida
historicamente a imigragao? Isso difere dos
generos ou dos tipos de atividade
argumentativa? Essas relagoes intertextuais e
interdiscursivas podem, e deveriam, ser
examinadas em termos de continuidades e
descontinuidades com a epoca atual.
No terceiro, ha as variantes
sociais/sociologicas e estruturas institucionais
de um "contexto de situagao" especffico.
Portanto, se o objeto de analise e um folheto
de eleigao partidaria, ele teria de ser
contextualizado como um folheto de eleigao
partidaria, ou seja, como e um texto produzido
em um momento particular, por uma
organizagao particular, de acordo com um
determinado conjunto de criterios discursivos.
No quarto, leva-se em consideragao os
contextos sociopolfticos e historicos mais
amplos dentro dos quais as praticas discursivas
estao embutidas. Este quarto nfvel de contexto
e a "historia", como e convencionalmente
compreendida, as amplas historias das
interagoes complexas entre as pessoas,
organizagoes, instituigoes e ideias. Tal
consideragao e baseada no princfpio de que o
discurso esta "situado nas, moldado e
constitufdo pelas circunstancias, que sao mais
do que e que sao diferentes da linguagem"
(ANTHONISSEN, 2003, p. 297). Por esse
40
IHNEN, Constanza; RICHARDSON, John E. Sobre a combinacao da Pragma-dialetica com a Analise Critica do
Discurso. Traducao de Laurenci Barros Esteves. EID&A - Revista Eletrdnica de Estudos Integrados em Discurso e
Argumentagao, llheus, n.1, p. 38-48, nov. 2011._
motivo, esses contextos sociais, polfticos e
historicos precisam ser trazidos de volta para a
analise. Essas quatro camadas permitem que
os pesquisadores se situem melhor e analisem
os significados do discurso e como eles se
relacionam ao contexto.
Alem disso, a AHD busca identificar o
efeito das estrategias discursivas especfficas
que podem servir para representar um
indivfduo ou um grupo, positiva ou
negativamente (ver REISIGL e WODAK,
2009). Especificamente, a AHD oferece cinco
tipos de estrategias discursivas que sustentam
a inclusao/exclusao do eu/outro, e a construgao
de identidades. "Estrategia", nesse sentido,
geralmente diz respeito a um (mais ou menos
preciso e mais ou menos intencional) piano de
praticas, incluindo praticas discursivas,
adotadas para alcangar um objetivo social,
politico, psicologico ou lingufstico em
particular.
Na primeira, ha as estrategias referenciais,
ou nominativas, pelas quais os atores sociais
sao nomeados e, dessa forma, discursivamente
representados e posicionados, por exemplo,
como parte de grupos internos e/ou grupos
externos. Isso pode ser alcangado por meio de
um numero de dispositivos de categorizagao
de filiagao mais ou menos explfcitos, desde a
nominalizagao aberta ate a metonfmia,
metafora e sinedoque.
Na segunda, atores sociais, enquanto
indivfduos membros de um grupo ou como um
grupo em si, sao linguisticamente
caracterizados atraves de predicagoes. Essas
estrategias predicacionais podem, por
exemplo, ser percebidas como atribuigoes
avaliativas de tragos negativos e positivos na
forma lingufstica de predicados implfcitos ou
explfcitos e, assim, objetivam a categorizagao
de atores sociais, processos, coisas etc., de
uma maneira mais ou menos positiva ou
negativa.
Na terceira, ha estrategias de
argumentacdo, e quanto a isso Reisigl e
Wodak (2001) dedicam uma enfase particular
aos topoi, por meio dos quais atribuigoes
positivas e negativas sao frequentemente
justificadas. Tipicamente, os topoi num
discurso preconceituoso ou discriminatorio sao
empregados para justificar a exclusao de
imigrantes atraves de argumentos quase
racionais, como: "eles sao um peso para a
sociedade", "eles custam muito caro", "a
cultura deles e muito diferente" etc.
(KRZYZANOWSKI e WODAK, 2008;
REISIGL e WODAK, 2001; WODAK e van
DIJK, 2000). Analisar as estrategias de
argumentagao de um texto/discurso tambem
requer que os analistas examinem o potencial
argumentative dos elementos visuais
(RICHARDSON, 2008). De fato, dados os
constrangimentos legais e os notaveis tabus
sociais contra argumentagoes racistas
abertamente declaradas em partidos polfticos,
argumentos preconceituosos normalmente nao
sao enunciados explicitamente e podem contar
com certos elementos pictoricos para avangar a
um ponto de vista coerente (RICHARDSON e
WODAK, 2009a).
Na quarta, pode-se focalizar em estrategias
de perspectivacao, enquadramento ou
representacdo do discurso. Atraves do
enquadramento, falantes expressam o seu
envolvimento no discurso e posicionam o seu
ponto de vista no relato, descrigao, narragao ou
citagao de eventos relevantes ou enunciados.
Na quinta, ha estrategias de intensificacdo
e atenuacdo, as quais ajudam a qualificar e
modificar o status epistemico de uma
proposigao pela intensificagao ou atenuagao da
forga ilocucionaria dos enunciados. Essas
estrategias podem ser um aspecto importante
da apresentagao, na medida em que atuam para
evidencia-la ou reduzi-la.
Assim, a AHD, para a Analise Critica do
Discurso, contextualiza texto e fala em relagao
a outros discursos, a pontos de referenda
social e institucional, bem como a contextos e
eventos sociopolfticos e historicos.
41
IHNEN, Constanza; RICHARDSON, John E. Sobre a combinacao da Pragma-dialetica com a Analise Critica do
Discurso. Traducao de Laurenci Barros Esteves. EID&A - Revista Eletrdnica de Estudos Integrados em Discurso e
Argumentagao, llheus, n.1, p. 38-48, nov. 2011._
A Pragma-Dialetica divide com a ACD o
interesse em descrever o discurso
(argumentative) e em realizar essas descrigoes
a partir da otica pragmatica. O printipio
pragmatico, por exemplo, aponta que o
significado do (fragmento do) discurso e
ligado ao seu contexto de uso, o que nao e
apenas fundamental a ACD mas tambem a
Pragma-Dialetica. Nao e surpresa, entao, que a
analise pragma-dialetica tambem recaia sobre
acordos empfricas que vao alem do proprio
discurso. As fontes tfpicas usadas para analisar
o discurso argumentative na Pragma-Dialetica
sao percebidas em relagao as estruturas
convencionais, as estrategias do discurso e as
evidencias etnograficas relacionadas ao
contexto espetifico do tipo de atividade - ou
genero - na qual o discurso esta inserido.
Tambem, o contexto sociopolftico e historico
mais amplo do discurso desempenha um
importante papel na analise de representagoes
do implfcito e dos atos de fala indiretos, como
as premissas nao ditas. (van EEMEREN,
GROOTENDORST, JACKSON e JACOBS,
1993; van EEMEREN, 2010).
Conectada a essa orientagao pragmatica do
discurso esta a pressuposigao compartilhada de
que a linguagem e uma atividade orientada a
um objetivo - que ocorre em meio a um
conjunto de restrigoes contextuais - e de que os
falantes querem que os seus enunciados nao
apenas sejam compreendidas mas tambem
aceitos. Essa visao comum do discurso pode
explicar outra ampla area em que ha acordo
entre as duas perspectivas: os seus interesses
em estudar a dimensao estrategica do discurso
(argumentative). Na Pragma-Dialetica, a busca
do falante pela efetividade e estudada a partir
do ponto de vista das "manobras estrategicas"
e, na Abordagem Historica do Discurso. sob o
conceito mais geral de "estrategia discursiva".
De maneira interessante, nao e apenas na
descrigao do discurso (argumentative) em que
essas perspectivas sobre o discurso se
encontram. A Pragma-Dialetica e a ACD
tambem convergem, em seus interesses, para a
execugao de alguns tipos de "avaliagoes" ou
"criticas" do discurso. Na Pragma-Dialetica, o
discurso argumentative e avaliado do ponto de
vista do modelo ideal de uma discussao critica,
que especifica os estagios e regras
instrumentais a resolugao racional de uma
diferenga de opiniao. Um movimento
argumentative que violar qualquer uma dessas
regras e negativamente avaliado como
"irrational" ou "falacioso", pois obstrui a
resolugao racional da disputa. Na ACD, os
analistas estao interessados nao apenas em
descrever como a realidade social e
representada no discurso, mas tambem em
rotular e caracterizar certas representagoes
como "inaceitaveis" ou "irracionais", pois
desempenham um papel na (re)criagao de
relagoes de desigualdade e de supressao de
poder. Tal caracterizagao, do que e
comunicado no discurso, tambem e claramente
avaliativa em sua natureza.2 Abordagens da
ACD que se baseiam na teoria da
argumentagao tambem empregam modelos
ideais de interagao comunicativa na Analise
Critica do Discurso. De fato, os analistas que
trabalham a partir da Abordagem Historica do
Discurso usaram a Pragma-Dialetica,
incluindo o modelo de uma discussao critica,
como parte de sua analise critica das
estrategias lingmsticas de argumentagao
(REISIGL e WODAK, 2001). Contudo, a
avaliagao discursiva, a partir da perspectiva da
ACD, normalmente significa mais do que
avaliar a razoabilidade dialetica.3
Em concordancia com a sugestao de van
Dijk (2008b, p. 823) de que a ACD deveria
abordar "a falta de teoria sobre as normas e
printipios da sua propria atividade critica",
2 Essa e, alias, a chave para a distingao entre 'Analise
Critica do Discurso', de um lado, e 'Analise do
Discurso', do outro. Esta ultima se preocupa apenas
com a descricao e interpretacao do discurso.
3 Embora, conforme detalhamos, a ACD possa, ainda
assim, integrar a analise pragma-dialetica em uma
ampla critica sociopolftica.
42
IHNEN, Constanza; RICHARDSON, John E. Sobre a combinacao da Pragma-dialetica com a Analise Critica do
Discurso. Traducao de Laurenci Barros Esteves. EID&A - Revista Eletrdnica de Estudos Integrados em Discurso e
Argumentagao, llheus, n.1, p. 38-48, nov. 2011._
recentemente, alguns estudiosos dentro da
ACD tornaram-se urn pouco mais envolvidos
na tarefa de fornecer uma justificativa teorica
explfcita, e mais coerente, para os julgamentos
normativos no coragao da critica4. Tal trabalho
permanece em seus estagios de
desenvolvimento, o que significa que mais
esforgo vai ser necessario ate que a critica
normativa possa ser recuperada de sua atual
localizagao isolada na filosofia politica e moral
(SAYER, 2006). Ainda assim, podemos
identificar duas abordagens teoricas
promissorias: adaptar e aplicar a nogao do
discurso deliberative de Habermas (conferir
FORCHTNER, no prelo; FORCHTNER e
TOMINC, no prelo); e a postura
antirreducionista, objetivista de Sayer sobre o
sofrimento social.
Ha, e claro, algumas diferengas notaveis
entre a Pragma-Dialetica e a ACD. O primeiro
e, talvez, mais obvio contraste remete ao tipo
de atividade discursiva com que cada uma se
relaciona. ACD nao esta especifica e
primariamente interessada na argumentagao. A
perspectiva da ACD pode ser aplicada a
qualquer tipo de discurso, e para cada
elemento de um discurso, nao importa qual
seja a sua fungao, argumentativa, informativa
ou explanatoria. A Pragma-Dialetica, em
contraste, lida exclusivamente com o discurso
argumentativo e, por isso, com movimentos
que tern uma fungao argumentativa.
Ha, alem disso, uma diferenga fundamental
no que diz respeito aos seus metodos de
analise. De um lado, a ACD nao possui uma
metodologia singular, mas baseia-se em
criterios e aplica categorias provenientes de
uma variedade de fontes. A lingufstica e uma
delas, e claro, mas tambem o sao a Teoria
Politica, a Filosofia Politica, a Sociologia e a
Historia. De fato, Sayer (2006, p. 463)
Ver a conferencia "Critica: Uma conferencia
interdisciplinar sobre 'ser critico'", realizada na
Universidade de Loughborough, em 26 de Junho de
2009.
argumenta que a "ACD nunca deve ser uma
atividade autossuficiente", e necessariamente
precisa se basear em "conhecimentos
academicos espetificos sobre as questoes
abordadas no discurso em questao" (ver
tambem WODAK, 2001). Do outro lado, a
Pragma-Dialetica tern um metodo de analise
proprio. Esse metodo consiste em realizar uma
"reconstrugao normativa" do discurso. A
finalidade de tal reconstrugao e recuperar, de
uma sequencia de atos de fala
pragmaticamente organizados, um conjunto de
atos argumentativamente relevantes, aos quais
as normas e as categorias do modelo ideal para
uma discussao critica sao pertinentes e
representam-nos em uma visao geral analitica
(van EEMEREN et al, 1993). A visao geral
especifica o tipo de disputa, as proposigoes
que compoem a substantia dos pontos de vista
e argumentos, os pontos de partida da
discussao, os tipos de esquemas de argumentos
usados em cada argumento separadamente e a
forma como esses argumentos se relacionam
uns com os outros.5
Diferente tambem e o foco da analise. O
que e relevante para a ACD pode nao ser
relevante para a Pragma-Dialetica, e vice
versa, e diferentes perspectivas sobre a
relevancia provavelmente resultam em
diferentes descrigoes do mesmo discurso. A
ACD tipicamente descreve textos a partir do
ponto de vista de um problema social
espetifico (por exemplo, a discriminagao
contra os mugulmanos) e concentra-se na
manifestagao discursiva do abuso de poder e
eixos de dominagao em relagao a esse
problema (por exemplo, a representagao do
5 Para ter certeza, ha uma sobreposigao partial entre a
Pragma-Dialetica e a ACD no que tange ao uso de
fontes (socio) Unguisticas na analise. Ainda assim, ha
uma diferenca crucial em que o modelo para uma
discussao critica especifica o que procurar no discurso e
fornece uma estrutura para sistematicamente interpretar,
situar e organizar dados empfricos relevantes.
43
IHNEN, Constanza; RICHARDSON, John E. Sobre a combinacao da Pragma-dialetica com a Analise Critica do
Discurso. Traducao de Laurenci Barros Esteves. EID&A - Revista Eletrdnica de Estudos Integrados em Discurso e
Argumentagao, llheus, n.1, p. 38-48, nov. 2011._
veu mugulmano em noticiarios).6 A analise
pragma-dialetica focaliza, em contraste, atos
argumentativamente relevantes, que sao os
atos que podem desempenhar um papel
(positivo ou negativo) em uma discussao
critica. Esses atos argumentativos podem dizer
respeito a qualquer assunto.
Ha tambem uma diferenga sutil no que diz
respeito a relagao entre a analise do discurso,
de um lado, e a avaliagao ou critica, do outro,
em cada uma dessas abordagens. Na Pragma-
Dialetica, analise e avaliagao sao trabalhadas
de forma independente, e o resultado de cada
um desses processos e apresentado
separadamente. Na ACD, em contraste, os
resultados das analises - um exame dos
processos do discurso em seu sentido mais
amplo - e a critica do discurso sao
frequentemente apresentados
simultaneamente.
A dimensao estrategica do discurso tambem
e analisada de forma diferente. Como foi
mencionado anteriormente, o ponto central da
abordagem pragma-dialetica do discurso e o
conceito de manobras estrategicas. A nogao e
baseada na suposigao pragma-dialetica de que
"engajar-se em um discurso argumentativo
sempre significa estar, ao mesmo tempo, fora
da razoabilidade critica e da eficacia astuta".
(van EERMEREN e HOUTLOSSER, 2009, p.
4). Manobras estrategicas buscam influenciar o
resultado de um estagio dialetico particular
para a propria vantagem de um indivfduo, por
meio da escolha de topicos potenciais
dispomveis nesse estagio, ao adaptar os atos
argumentativos aos que sao mais agradaveis a
6 Dito isso, e importante ressaltar outro ponto
significante: A ACD nao - ou pelo menos nao deveria -
evidencia cada representacao negativa de alguem
pertencente a um grupo sem poder como, por si so,
ilegftima (isto e, racista, sexista, antimuculmana, etc.).
Uma analise critica do discurso deve distinguir entre a
critica legftima de (pessoas que por acaso sao), por
exemplo, muculmanos e ataques ilegftimos (em outras
palavras, preconceituosos ou racistas). Para uma
elaboracao desse ponto de vista, ver Richardson (2006).
uma audiencia e por meio da escolha
intencional de dispositivos de apresentagao
incluindo, mas nao exclusivamente, as varias
figuras e tropos da teoria classica da
argumentagao (retorica e dialetica). Porem, as
escolhas espetificas que os argumentadores
fazem em suas manobras estrategicas podem,
todavia, ser tratadas como estruturas
obrigatorias, o que significa que deveriamos
considerar a inclusao dessas escolhas de forma
pragmatica, expondo como e em quais
aspectos o uso de manobras particulares pode
ser explicado pelas oportunidades particulares
oferecidas por certo estagio dialetico (ver
tambem PERELMAN e OLBRECHTS-
TYTECA, 1969, p. 168). Essa caracterizagao
de manobras estrategicas ja aponta alguns
contrastes com a ACD: A ACD nao se
preocupa apenas com estrategias
argumentativas, e mesmo quando a estrategia
em estudo e argumentativa, o analista nao
explica necessariamente tais estrategias por
referenda ao quadro dialetico de uma
discussao critica.7
Por fim, ha tambem muitas diferengas
significantes relacionadas a avaliagao do
discurso. A Pragma-Dialetica objetiva a
identificagao de atos argumentativos falaciosos
- atos que obstruem a resolugao racional de
uma divergencia de opinioes. Para tal, o
analista verifica se os atos cumprem com as
regras de uma discussao critica. Na ACD, a
principal preocupagao e associar a analise
lingufstica a analise social, examinando as
relagoes entre o texto e o contexto em geral e,
especificamente, entre o discurso (linguagem
em uso) e a supressao de poder social, politico
e economico.
2. Perspectivas de um dialogo entre a
Pragma-Dialetica e a ACD
7 Ver tambem Richardson (2001) e Ietcu-Fairclough
(2008), que incorporam uma abordagem de manobras
estrategicas em suas analises.
44
IHNEN, Constanza; RICHARDSON, John E. Sobre a combinacao da Pragma-dialetica com a Analise Critica do
Discurso. Traducao de Laurenci Barros Esteves. EID&A - Revista Eletrdnica de Estudos Integrados em Discurso e
Argumentagao, llheus, n.1, p. 38-48, nov. 2011._
Antes de especificar os meios pelos quais a
ACD pode tirar proveito de uma abordagem
pragma-dialetica, e importante definir
claramente os limites de uma contribuigao
pragma-dialetica. A Pragma-Dialetica,
enquanto teoria da argumentagao, pode ser
relevante para a Analise Critica do Discurso
apenas no que diz respeito a dimensao
argumentativa do discurso em estudo. Assim,
um discurso pode englobar declaragoes,
pressuposigoes e implicaturas, por exemplo,
que sao extremamente in teres santes a partir da
perspectiva da ACD, mas que nao seriam
tomadas por uma reconstrugao pragma-
dialetica, pois nao sao argumentativamente
(isto e, dialeticamente) relevantes.
Dito isso, pensamos que a Pragma-Dialetica
pode contribuir para uma analise critica do
discurso argumentativo em ao menos tres
aspectos.8 Em primeiro lugar, a Pragma-
Dialetica oferece um aparato teorico para
estabelecer o que e comunicado no discurso
argumentativo. A atribuigao de um grande
numero de elementos implfcitos no discurso
argumentativo - compromissos proposicionais,
relagoes funcionais, organizagao estrutural e a
coerencia geral do discurso argumentativo -
pode apenas ser justificada adequadamente
pela referenda a algum conjunto de
expectativas relacionadas ao modo como a
argumentagao deve proceder. Isso e
precisamente o que a Pragma-Dialetica
fornece. Esquemas de argumentos fornecem o
embasamento teorico para reconstruir
premissas implfcitas e pontos de vista, e para
identificar o tipo de relagao justificatoria entre
Devido a limitacoes de espaco, iremos apenas
examinar as formas atraves das quais a Pragma-
Dialetica pode contribuir para a ACD. No entanto, a
ACD tambem pode contribuir para a Pragma-Dialetica,
por exemplo, ao expor modos, ou 'especies' de praticas
argumentativas nas quais as estrategias de relacoes
desiguais de poder sao promulgadas. Emrelacao a AHD
em particular, os quatro 'mveis de contexto' utilizados
para localizar as praticas, estrategias e textos em
contextos especfficos poderiam ser muito uteis no refino
de analise de tipos de atividades argumentativas.
argumentos e pontos de vista (ATKIN e
RICHARDSON, 2007). Da mesma forma, os
tipos diferentes de estruturas argumentativas
distinguidas na Pragma-Dialetica
subordinativa, coordenativa e multipla -
fornecem uma ferramenta teoricamente
motivada para descrever a relagao entre os
argumentos utilizados na justificativa de
alguem e algum ponto de vista. Em resumo,
consideramos que os metodos pragma-
dialeticos de analise podem fornecer o
embasamento teorico e sistematico para as
pretensoes interpretativo-descritivas da ACD.
E isso, por sua vez, pode prevenir acusagoes
contra a ACD de vies interpretative que forga
uma leitura ideologicamente motivada de um
texto9. Essa contribuigao em nfvel de analise
nao deveria ser subestimada, uma vez que
qualquer critica social apropriada do discurso
pressupoe uma descrigao adequada.
Em segundo lugar, gostariamos de destacar
o potencial das manobras estrategicas para o
enriquecimento de analises estrategicas da
AHD. Isso se aplica nao apenas ao analista das
'estrategias de argumentagao' da AHD (topoi),
mas tambem ao estudo de estrategias relativas
aos atos argumentativo s que vao alem do ato
de fala da argumentagao, como o
enquadramento de uma diferenga de opiniao
de um modo vantajoso na fase de confronto,
ou como apresentar, na fase inicial, pontos de
partida como se fossem questoes de "fato".
Ademais, cremos que a ACD pode se
beneficiar dos metodos pragma-dialeticos para
avaliar o discurso argumentativo. Em nosso
ponto de vista, uma critica social do discurso
nao deveria consistir simplesmente em uma
justaposigao de ideias transmitidas num
discurso e de pontos de vista expressos pelo
analista critico do discurso na realidade social.
Em vez disso, a critica deveria envolver a
9 Schelgloff (1997), por exemplo, avalia as descricoes
da ACD como problematicas, pois ele considera a
interpretacao do analista como baseada no compromisso
ideologico e nao em uma perspectiva analftica.
45
IHNEN, Constanza; RICHARDSON, John E. Sobre a combinacao da Pragma-dialetica com a Analise Critica do
Discurso. Traducao de Laurenci Barros Esteves. EID&A - Revista Eletrdnica de Estudos Integrados em Discurso e
Argumentacao, llheus, n.1, p. 38-48, nov. 2011._
justificagao - uma justificagao que leve em
conta os argumentos avangados no discurso
em analise. Cremos que os instrumentos
pragma-dialeticos para avaliagao - regras de
discussao critica e questoes criticas em
particular - podem desempenhar um
importante papel em um processo justificatory
desse tipo.
3. Para uma abordagem integrada da
analise da argumentacao
Concretamente, propomos a concepgao de
critica como o processo no qual o analista
critico do discurso avalia a eficiencia dos atos
argumentativos a partir da perspectiva da
discussao critica. Para fazer jus aos interesses
emancipatorios da ACD, todavia, a avaliagao
da argumentagao do autor deveria ir alem,
encarando, quer a critica realmente exposta
pelo oponente real, quer a critica projetada
pelos proprios argumentadores. O processo
avaliativo deveria permitir ao analista
apresentar as criticas que ainda nao foram
levadas em conta pelos partidos reais ou
projetados para a disputa. Em outras palavras,
cremos que o analista do discurso critico
deveria ter permissao para tomar parte na
discussao como se integrasse outro partido na
disputa, que assume (no minimo) o papel de
antagonista aos pontos de vista expressos pelo
autor10. Dessa forma, o analista vai
necessariamente confiar, explfcita ou
implicitamente, em alguns modelos polfticos
normativos ou ideias.
Dessa forma, os analistas criticos do
discurso podem sistematicamente justificar as
suas criticas de que certo discurso e parcial (no
sentido de se basear na ignorancia ou em um
Um analista critico do discurso pode - e
provavelmente ira - assumir tambem o papel de
protagonista do ponto de vista oposto. Alem disso,
ele/ela pode assumir, em mvel de uma subdisputa, o
ponto de vista de que a argumentacao e insuficiente e
adiantar objecoes a argumentacao do protagonista para
justificar a critica dele/dela.
entendimento parcial de uma realidade social)
ou ideologicamente questionavel (uma vez que
contribui para o sofrimento ou dificulta o
florescimento interpessoal, ver SAYER,
2006), ao argumentar contra a aceitabilidade
das premissas, ou contra a relevancia e
suficiencia dos argumentos apresentados.
Alem disso, os padroes para uma discussao
critica poderiam ajudar a identificagao do
preconceito e das relagoes de dominancia em
nfveis discursivos que vao alem do processo
de exposigao de argumentos. Por exemplo, a
avaliagao pragma-dialetica pode trazer a tona
inconvenientes interacionais como a restrigao
da liberdade de agao do outro partido em nfvel
de confrontagao (violagao da regra 1). Se o
oponente e membro de algum grupo social
suprimido de poder, essa falacia poderia
apontar para a (re)cria£ao da desigualdade
social no discurso. Tambem, o tratamento de
uma disputa mista em termos de diferenga de
opiniao nao-mista (violagao da regra 2)
poderia ser uma forma de negligenciar a
existencia do outro, discursos contraditorios e
nao-dominantes, na esfera publica.
Cremos que a nossa proposta faz jus aos
princfpios que estao na base de cada uma
dessas abordagens: racionalidade dialetica, por
um lado, e um compromisso politico para
aqueles que mais sofrem, do outro. A
racionalidade dialetica e preservada enquanto
exigimos do analista que ele exponha que os
pontos de vista expressos no discurso sao
inaceitaveis por nao resistirem a um teste
critico. Ao mesmo tempo, a unidade
sociopolftica da ACD e mantida ao permitir
que o analista assuma um papel ativo na
discussao (implfcita ou explfcita) pressuposta
pelo discurso em consideragao. No exercfcio
desse direito, o analista pode trazer a discussao
criticas da argumentagao que nao sao
absorvidas pelo autor e discursos dominantes
no dommio publico11.
11 Diante do exposto, pode parecer que o claro interesse
dos analistas criticos do discurso em descobrir os erros
46
IHNEN, Constanza; RICHARDSON, John E. Sobre a combinacao da Pragma-dialetica com a Analise Critica do
Discurso. Traducao de Laurenci Barros Esteves. EID&A - Revista Eletrdnica de Estudos Integrados em Discurso e
Argumentagao, llheus, n.1, p. 38-48, nov. 2011._
Referencias
ANTHONISSEN, C. Interaction between visual and
verbal communication: changing patterns in the
printed media. In: WEISS, G.; WODAK, R. (Eds.).
Critical Discourse Analysis: Theory and
Interdisciplinarity. Houndmills: Palgrave, 2003. p.
297-311.
ATKIN, A.; RICHARDSON, J.E. Arguing about
Muslims: (Un)Reasonable argumentation in letters to
the editor. Text and Talk, n.27, v.l, p.1-25, 2007.
BILLIG M.; CONDOR, S.; EDWARDS, D.; GANE,
M.; MIDDLETON, D.; RADLEY, A.R. Ideological
Dilemmas. London: Sage Publications, 1998.
CAMERON, D. Working With Spoken Discourse.
London: Sage, 2001.
DUK, T. A. van. Principles of Critical Discourse
Analysis. Discourse and Society, n.4, v.2, p. 249-
283,1993.
_. Multidisciplinary CDA: a plea for diversity.
In: WODAK, R.; MEYER, M. (Eds.). Methods of
Critical Discourse Analysis. London: Sage, 2001. p.
95-120.
_. Discourse and Context. A Sociocognitive
Approach. Cambridge: Cambridge University Press,
2008a.
_. Critical Discourse Analysis and
nominalization. Discourse & Society, n. 19, v. 6,
p.821-828, 2008b.
EEMEREN, F.H. van. Strategic Maneuvering in
Argumentative Discourse: Extending the Pragma-
Dialectical Theory of Argumentation.
Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins, 2010.
_; GROOTENDORST, R.; JACKSON, S.;
JACOBS, S. Reconstructing Argumentative
argumentativos do autor poe em risco o princfpio da
razoabilidade dialetica. Pensamos, porem, que essa
conclusao e muito precipitada. E verdade que os
analistas terao interesse em 'ganhar' a disputa, mas nao
menos do que qualquer antagonista em uma divergencia
de opiniao. Em consonancia com a nocao de manobra
estrategica, cremos que os objetivos retoricos dos
analistas podem, mas nao precisam, entrar em conflito
com os seus objetivos dialeticos.
Discourse. Tuscaloosa/London: The University of
Alabama Press, 1993.
_; HOUTLOSSER, P. Strategic maneuvering:
Examining argumentation in context. In F.H. van
Eemeren (Ed.). Examining Argumentation in
Context: Fifteen studies on strategic maneuvering.
Amsterdam: John Benjamins, 2009. p. 1-24.
FAIRCLOUGH, N. Rhetoric and Critical Discourse
Analysis: A Reply to Titus Ensink and Christoph
Sauer. Current Issues in Language & Society, n. 3,
v. 3, p.286-289, 1996.
_. Analysing Discourse: Textual Analysis for
Social Research. London: Routledge, 2003.
_. A dialectical-relational approach to critical
discourse analysis in social research. In: WODAK,
R.; MEYER, M. (Eds ). Methods of Critical
Discourse Analysis. 2nd ed. London: Sage, 2009.
p.162-186.
_. IETCU-FAIRCLOUGH, I. Argumentation
Theory in CDA: Analyzing Practical Reasoning in
Political Discourse. In: CILLIA, R. de; GRUBER,
H.; KRZYZANOWSKI, M.; MENZ, F. (Eds.).
Discourse-Politics-Identity. Vienna: Stauffenburg
Verlag, (forthcoming).
FORCHTNER, B. Critique, the discourse-
historical approach, and the Frankfurt School.
(forthcoming).
_; TOMINC, A. Critique in the Discourse-
Historical Approach: Between Habermas' Critical
Theory and Popper's Critical Rationalism,
(forthcoming).
FREELEY, A. J. Argumentation and debate:
Critical thinking for reasoned decision making. 9th ed.
Belmont, CA: Wadsworth, 1996.
HEER, H.; WODAK, R. Introduction: Collective
Memory, National Narratives and the Politics of the
Past. In: HEER, H.; MANOSCHEK, W.; POLLAK,
A.; WODAK, R. (Eds.). The Discursive
Construction of History: Remembering the
Wehrmacht's War of Annihilation. Basingstoke:
Palgrave, 2008. p.1-13.
HULTZEN, L. S. Status in deliberative analysis. In:
BRYANT, D C. (Ed ). The rhetorical idiom: Essays
47
IHNEN, Constanza; RICHARDSON, John E. Sobre a combinacao da Pragma-dialetica com a Analise Critica do
Discurso. Traducao de Laurenci Barros Esteves. EID&A - Revista Eletrdnica de Estudos Integrados em Discurso e
Argumentagao, llheus, n.1, p. 38-48, nov. 2011._
in rhetoric, oratory, language and drama. New York:
Russell and Russell, 1966.
IETCU-FAIRCLOUGH, I. Legitimation and strategic
maneuvering in the political field. Argumentation,
n. 22, p.399-417, 2008.
_. Argumentation and CDA, presentation at
Language, Ideology, Politics Workshop, Lancaster
University 27 January 2010.
KRZYZANOWSKI, M.; WODAK, R. The Politics
of Exclusion. Debating Migration in Austria. New
Brunswick, NJ: Transaction Publishers, 2008.
LEMKE, J. Textual Politics: Discourse and social
dynamics. London: Taylor & Francis, 1995.
REISIGL, M.; WODAK, R. Discourse and
Discrimination. Rhetorics of Racism and
Antisemitism London: Routledge, 2001.
_. The Discourse-Historical Approach. In:
WODAK, R.; MEYER, M. (Eds.). Methods of
Critical Discourse Analysis. 2nd ed. London: Sage,
2009. p. 87-121.
RICHARDSON, J. E. 'Now is the time to put an end
to all this': Argumentative discourse theory and
letters to the editor. Discourse and Society, n.12,
v.2: p.143-168, 2001.
_. On delineating 'reasonable' and
'unreasonable' criticisms of Muslims. Fifth Estate
Online, August 2006.
_. 'Our England': discourses of 'race' and class
in party election leaflets. Social Semiotics, n.18, v.3,
p.321-336, 2008.
_; Wodak, R. The impact of visual racism:
Visual arguments in political leaflets of Austrian and
British far-right parties. Controversia, n.6, v.2:
p. 45-77, 2009a.
_. Recontextualising fascist ideologies of the
past: right-wing discourses on employment and
nativism in Austria and the United Kingdom.
Critical Discourse Studies, n.6, v.4, p. 251-267,
2009b.
SAYER, A. Language and significance - or the
importance of import: Implications for critical
discourse analysis. Journal of Language and
Politics, n.5, v.3, p.449-471, 2006.
SCHEGLOFF, E. A. Whose Text? Whose Context?
Discourse & Society, n.8, v.2, p.165-187, 1997.
SHAW, W.C. The art of debate. Boston: Allyn &
Bacon, 1922.
TITSCHER, S.; MEYER, M.; WODAK, R.;
VETTER, E. Methods of Text and Discourse
Analysis. London: Sage, 2000.
WODAK, R. What CDA is about. In; WODAK, R.;
MEYER, M. (Eds ), Methods of Critical Discourse
Analysis. London: Sage, 2001. p.1-13.
_. The Discourse of Politics in Action:
Politics as Usual. Basingstoke: Palgrave, 2009.
_; DUK, T.A van (Eds.). Racism at the Top.
Klagenfurt: Drava, 2000.
ZAGAR, I.Z. The Use of Topoi in Critical Discourse
Analysis (CDA), Keynote Lecture, 2nd International
Conference on Political Linguistics, University of
Lodz, Poland, 17-19 September 2009.
Traducao:
Laurenci Barros Esteves
Graduando em Letras (Portugues/Ingles) pela
Universidade Estadual de Santa Cruz, Brasil, e bolsista
FAPESB de Iniciacao Cientffica, sob a orientacao do
Prof. Msc. Eduardo Lopes Piris.
E-mail: lbsteves @ gmail.com.
Revisao da traducao:
Kelly Cristina de Oliveira
Doutoranda em Filologia e Lingua Portuguesa, pela
Universidade de Sao Paulo, Brasil, sob a orientacao da
Profa. Dra. Maria Lucia da Cunha Victorio de Oliveira
Andrade. E-mail: kelly cristina oliv@yahoo.com.
48